Norman Borlaug faleceu no passado dia 12 de Setembro, aos 95 anos, sem causar o impacto que o falecimento de Madre Teresa de Calcutá causou na comunicação social de todo o Mundo. Algo que é surpreendente face ao seu legado para a Humanidade.
Aproveito o falecimento deste ilustre prémio Nobel da Paz, considerado o pai da «Revolução Verde», para sublinhar a necessidade de repensar o conjunto de valores básicos que estão a ser ensinados pela nossa Sociedade. Borlaug salvou centenas de milhões de seres humanos do flagelo da fome e o seu trabalho foi responsável por uma mudança no panorama económico mundial. Nunca foi milionário, nunca pretendeu sê-lo, e muito menos se preocupou em ser avaliado pela quantidade de vil metal que uma pessoa ganha ou acumula.
Comparar a postura de vida de Borlaug com a postura de vida dos gurus financeiros de Wall Street, aquele conjunto de senhores que quase levou o Mundo à ruína, revela grandes contrastes. Borlaug nunca precisou de copiosas remunerações e compensações para estar motivado no que sabia fazer. Recusou a duplicação do seu ordenado na Dupont, bem como uma carreira monetariamente “brilhante”, para se dedicar ao projecto que deu origem à «Revolução Verde». Deixou como legado a solução alimentar para centenas de milhões de seres humanos.
Por confronto, que legado nos deixam os gurus financeiros de Wall Street e os muitos executivos empresariais que necessitam de grandes salários e compensações para estarem devidamente motivados? Se alguém conhece outro legado para além da actual crise financeira, então que venha a terreiro em sua defesa. Se alguém conhece um novo produto capaz de melhorar a vida das pessoas, ou alguma inovação diferente do esquema de contorno das normas que asseguram a transparência, eficiência e estabilidade da informação contabilística e financeira, não hesite em partilhar tão relevante informação.
Ironia das ironias, a teoria económica neoclássica – que predomina na nossa sociedade ocidental – defende que a remuneração que cada pessoa recebe reflecte a sua contribuição social marginal para o bem-estar da sociedade. Por outras palavras, ao fazer o bem o Homo Oeconomicus (Homem Económico) prospera. A ser válido o argumento da teoria económica neoclássica, Borlaug teria falecido muito rico, estando entre o grupo dos homens mais ricos do planeta, e os responsáveis pela actual crise estariam hoje nas filas dos que pedem ajuda num qualquer Banco Alimentar contra a Fome.
Para bem da Humanidade, Borlaug recusou ser milionário. Para mal da Humanidade, continuamos a ensinar falsos valores de sucesso pessoal e profissional, continuamos a ensinar “receitas de sucesso” empresarial em que se confundem os meios com os fins. Para mal da Humanidade continuamos a premiar quem atinge determinados objectivos sem olhar a meios para os alcançar. Continuamos a malbaratar o nosso Capital Humano, o nosso bem mais precioso para a Humanidade, desde tenra idade e ainda muito antes de as crianças se sentarem nos bancos de escola.
Através de sistemas de avaliação e recompensa do desempenho, baseados em remunerações absurdamente copiosas, «pára-quedas dourados» e contratos de trabalho blindados, matamos à nascença a emergência de outros Borlaug e damos azo à emergência de uma classe de gestores mais preocupados com o montante da suas contas bancárias em paraísos fiscais, a quem pouco importa o resto da sociedade, a sustentabilidade da economia ou o impacto das suas decisões nas alterações climáticas do planeta Terra. Sem Borlaug, hoje estamos todos mais pobres!
* Doctor en Ciencias Empresariales por la Universidad de Sevilla y Doctor Europeo


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